Gin Tónico, paixão nacional
- Sep 9, 2014
- 6 min read
Se perguntar a qualquer Barman do norte ao sul do país, qual é a bebida mais pedida atualmente, vai receber, com certeza a mesma resposta: Gin Tónico. É a bebida da moda em Portugal. Não há dúvida.

Gin tónico digno de uma Bond Girl no Pedras Amarelas Lounge
Mas a moda demorou a chegar. Ali na vizinha Espanha, a febre do Gin começou há mais de sete anos. De repente, todos os bares começaram a ter carta de Gins e os mixologistas - esse nome tão refinado com que agora nos devemos referir aos barmans e que reflete a evolução no setor- passaram a recomendar águas tónicas especiais e complementos como bagas, especiarias, frutas ou até legumes para potenciar o bouquet desta refrescante bebida.
Como vivia e trabalhava em Espanha na época, presenciei ao vivo e em direto, esta "gin fever". Se íamos de visita social a casa de alguém, lá vinha o anfitrião com alguma garrafa desconhecida e com uma nova receita de Gin para nos surpreender. Nesses anos (aí a partir do 2007) uma das prendas de Natal mais comum para os apreciadores da bebida era um "Kit de Gin", com dois copos de balão, ou os clássicos copos "collins", várias especiarias e apetrechos: o strainer (coador), o jigger (um copinho medidor) e em especial a colher de Gin.
E pergunta você: mas para que é que o Gin precisa de uma colher especial? As dezenas de colheres de cocktail que tenho em casa não servem? Pois, essa mesma pergunta fiz eu ao barman (ai, perdão, mixologista) do bar do Hotel Ritz em Madrid. Mostrou-me a colher de prata desenhada em forma de espiral e colocou-a perto do bocal enquanto fazia deslizar suavemente a água tónica para dentro do copo, já preparado com gin, muito gelo e os respetivos potenciadores de sabor. A colher em espiral serve para não romper a bolha da tónica. Fiquei maravilhada com esta "mise-en-scéne". E foi a partir de aí que comecei a identificar se me estavam a preparar de forma correta um bom Gin.
Nessa altura, em Portugal ainda não se falava de nada disto e devo ter chocado algumas senhoras quando vinha por cá e pedia um "Sr." copo de Gin. Ora felizmente, o tempo não pára e hoje a história é outra. Não só Portugal inteiro anda apaixonado pela bebida, como ainda por cima dou por mim a ter conversas com amigos e amigas sobre se o bouquet do Gin "X-pto"combina melhor com a tónica "premium" "bla-bla-bla".
E porque nós, portugueses, quando gostamos de algo, gostamos mesmo muito, até encontrei um grupo editorial apaixonado pelo Gin que criou a "Zest by Gin Lovers" ou seja, a primeira e "única" revista de Gin no Mundo. Na última edição criaram um projeto criativo com a Santini e nasceram cinco "sorbets" únicos de gin tónico. Espero bem que os comercializem! Nas noites quentes deste Verão o que mais se via eram cavalheiros e senhoras com os grandes copos de gin, a bebida refrescante e perfeita para as noites quentes.
O ABC dos gins
Só existe uma forma de identificar qual é o melhor Gin Tónico para si: provando. E se possível em boa companhia.
E olhe que há muito por onde escolher... Leopold, Hendrick's, Beefeater, G'Vine, Bulldog, Bombay Sapphire, Plymouth, Monkey 47, Mombasa, Williams Chase, Berkeley Square, Nordés, Blackwoods Vintage, Citadelle, Oxley, Tanqueray, Brockmans, VL92, Studer, Gin Mare, Edgerton Pink, e tantos outros que ainda não conheço... Para que tenha uma ideia da variedade se for a um verdadeiro bar de gins, poderá encontrar mais de 100 referências de gins...

Poções? Magia? Não, são só alguns dos ingredientes para um
gin tónico perfeito no Moon Bar em Vilamoura.
Para escrever esta parte do post saí de casa e vim com a minha tablet para a barra do bar Moon em Vilamoura. Escrever sobre gin exige inspiração... e aqui ao lado das garrafas de mil cores e feitios, o aroma da ginebra e das especiarias, é provavelmente o sítio mais adequado. Hoje o barman está atarefado, há um grupo de golfistas irlandeses e outro de mulheres exaltadas, parece-me uma despedida de solteira, que pedem cocktails como se não houvesse amanhã...
Mas voltemos ao G&T. Primeiro, um bom gin tónico deve vir servido num copo bem arrefecido e com a dose certa de gelo, em pedras grandes, estaladiças e polares... dependendo do tipo de Gin, este pode ser complementado com casca de laranja ou limão, rodelas de maçã verde, pêra rocha, gomos de toranja, pepino, morangos, framboesas, especiarias variadas como estrela de anis, pau de canela, cravinho, vagens de baunilha, folha de louro, malaguetas, alecrim, gengibre, pimenta rosa, etc... Normalmente os mixologistas já têm estas receitas bem testadas e apresentam-nas nas cartas de Gin.
E depois há o mundo (desconhecido) das águas tónicas, as "premium" e as "comúns". Vêm com diferentes aromas e tipos de bolha e segundo a especialidade são indicadas para combinar e potenciar a experiência do seu gin favorito.
Embora a água tónica seja o refresco engarrafado mais antigo do mundo, a moda das tónicas "premium" tem pouco mais que 10 anos. Um dos pioneiros foi Charles Rolls que criou as "Fever Tree", que existem numa diversidade de sabores e bouquets aromatizados com ingredientes únicos e tão longínquos como as toranjas da Tanzânia. Da linha das "Fever" as minahs favoritas são os bouquets "Indian" e o "Mediterrânica".
No mercado das tónicas existem também as "Nordic Mist", as "Thomas Henry" ou as "1724". Destaco ainda das "premium" as "Peter Spanton" em versões onde dominam aromas como o chocolate e menta, erva-limão, cardamomo e a "San Pellegrino Acqua Tonica" com um ligeiro bouquet de ervas e cítricos. Até a gigante Schweppes, que controla em massa o mercado mundial com a sua tónica "comum", não quiz ficar atrás e lançou a sua própria gamas de "premium".
Em Portugal, aproveitando esta febre imparável dos gins e o centenar "savoir-faire" dos nossos destiladores e empresários, já se lançaram alguns gins portugueses. Por exemplo, o "Nao", um em tributo às naus portuguesas que descobriram com bravura novos mundos e culturas. O "Nao" foi ideado pelo português Miguel Camões e pela espanhola Cristina Cosedido, é destilado em Inglaterra e depois "aportuguesa-se descansando quatro meses em barricas de Vinho do Porto para captar um acento a madeira tostada. Outro gin luso mas com ar carioca, é o "Ish Limão" feito em Portugal pela Poshmakers, o casal Fran Ameijeiras e Ellie Baker. Em Monsaraz, na paz do imenso Alentejo destila-se outro gin, o "Sharish". E acabadinho de chegar temos ao "Big Boss" que se apresenta como o primeiro gin premium floral português. Ainda não provei, mas quando o encontrar, contarei a experiência...
Uma tradição com história
Certos puristas defendem que o gin deve ser um destilado unicamente feito a partir de bagas de zimbro. No entanto, fruto da evolução da bebida encontram-se destilados de zimbro, abrunhos ou arandos, todos feitos de forma artesanal em alambiques e seguindo os preceitos das fórmulas com centenas e centenas de anos.
É depois macerado com as diferentes composições botânicas, que incluem ingredientes tão variados como tomilho, verbena, chá verde, sementes de coentros, raspa de limão, sementes de papoila, hibisco, pinhas, salva, roseira brava, lavanda, alcaçús, flor de sabugueiro, cássia, amêndoa, jasmim, abrunho, entre outros. As fórmulas são muito complexas e incluem geralmente mais de uma centena de botânicos, alguns utilizados para compor o perfume e outros, para conseguir a expressividade e a variedade complexa das notas de sabor. E tal como na "haute cuisine" um prato demora meses a ser criado e aperfeiçoado por um Chef, aqui a fórmula dos botânicos e o tempo de maceração é refinado pelo gosto do "master distiller".
Tal como no mundo da moda, também nas bebidas, tudo volta e tudo se transforma. A indústria do Gin começou algures no século XVIII na Europa Central e do Norte. Mas existem referências a destilados feitos com zimbro já no século XII, na Alemanha e na Suiça, os famosos "schnapps". Primeiro, foi usado como medicina e por isso algumas versões se chamam "eau de vie". Os últimos 20 anos representaram uma grande evolução na indústria e composição dos Gins.
Portanto se ainda não trataram de rechear a garrafeira com Gins e Águas "premium", façam favor de ir tratar do assunto rapidamente! Porque se eu chego primeiro acabo com o stock :).
E já agora, uma sugestão... como parece que ainda vamos ter mais algumas noites quentes nas próximas semanas (ok, hoje aqui está a chover mas deve ser passageiro) prepare para si e para o seu "mais que tudo" dois grandes copos de gin, gelo e tónica, escolha os complementos favoritos e vá degustá-los de mãos dadas para o telhado da sua casa a contar estrelas... Que tal experimentar um "Brockmans" com framboesas? Ou um "Leopold" com fatias de pêra-rocha?
Beijinhos com gostinho a zimbro...
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